-Gustav Mahler costuma dizer uma coisa muito interessante.
Gustav Mahler, o músico boêmio. Mahler dizia que em vez de dar as partes mais
expressivas de sua música aos instrumentos de maior expressividade, por exemplo
aos violinos, dava-as aos mais duros, aos metais, a um trompete ou a um
trombone. Interessante, não? As partes mais expressivas para os meios menos
expressivos. Interessante.
-Eu não capto muito bem esse negócio. Parece meio bobagem...
Imagine se o Firpo, na hora do nocaute, em vez de pegar pesado na porrada
resolvesse pegar leve. O que o senhor ia achar de uma pessoa que fizesse isso?
Que é um idiota.
-Não seja burro, Verani, faça-me o favor.
-O que o senhor está dizendo não faz sentido. Não tem pé nem
cabeça.
-Não sou eu que estou dizendo, imagine. Gustav Mahler é que
dizia.
-Tanto faz, Ledesma, não enche. É besteira, isso, de
qualquer jeito é besteira.
-Eu não entendo, realmente não entendo essa sua teimosia.
Que mania de quere comparar uma coisa com a outra.
-O que o senhor está dizendo não tem pé nem cabeça.
-Uma luta de boxe, derrubar o outro, machucar o outro. E uma
sinfonia, no caso a primeira, de Gustav Mahler. Evidentemente o senhor não faz
ideia do que eu estou falando.
-O senhor vem e me diz: as partes delicadas da musiquinha
tocadas a porrada. Não faz sentido.
-A gente nunca sai do mesmo lugar, Verani, porque o senhor
continua decidido a não ouvir nem um pedacinho da obra?
-É que eu durmo Ledesma, o que é que eu posso fazer?
-Mas não estou falando de uma sinfonia inteira. Só um pouco,
para saber do que se trata.
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Uma das coisas mais
bacanas da ficção é poder mergulhar (ainda que pra isso as pesquisas sejam
extensas) em fatos reais e, a partir daí, conseguir recriar toda a atmosfera de
situações que, de alguma forma, não conseguimos presenciar, somente ouvir e ler
relatos por outros meios.
Ainda que eu veja historiadores reclamando do que eu vou
falar agora, em boa parte das vezes eu fico tão intrigado com a história que
quase que a ficção passa a ser a verdade. Talvez um pouco de exagero, eu
consigo discernir a ficção da realidade, mas fico intrigado quando algum livro
consegue tornar essa 'verdade' mais complicada de diferenciar da ficção.
O livro de hoje consegue recriar uma cena importantíssima na
história do esporte e também cultural da Argentina em setembro 1923.
Segundos Fora tenta recriar a luta histórica entre o Campeão
Mundial dos Pesos Pesados, o americano Jack Dempsey e o argentino Luis Ángel
Firpo (conhecido pelo carinhoso apelido "El Toro Salvaje de las
Pampas"), que ficou eternizada da pior maneira possível. Firpo simplesmente
nocauteou Dempsey para fora do ringue, mas o juiz não começou a contagem quando
foi preciso e deu chance de Dempsey voltar ao ringue. Passaram-se 17 segundos
da queda de Dempsey, sem que o juiz notasse.
E pensar que ele só precisaria de apenas 10 segundos na
contagem, para se tornar o verdadeiro campeão (Dempsey voltou ao ringue e em
seguida nocauteou Firpo).
Outro acontecimento decisivo para a época foi à apresentação
da sinfonia de Gustav Mahler no Teatro Colón, em Buenos Aires regida por
Richard Strauss.
Esses dois acontecimentos vão ser lembrados mais de 50 anos
depois na edição comemorativa de um jornal de uma pequena cidade chamada
Trelew, na Patagônia.