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quinta-feira, 31 de maio de 2012

Na praia

"Florence suspeitava que houvesse alguma coisa profundamente errada com ela, achava ter sempre sido diferente e que enfim seria desmascarada. Seu problema, ela pensava, era maior e mais profundo que a simples repulsa física; todo o seu ser se rebelava contra a perspectiva do contato e da carne; sua tranquilidade e felicidade essencial estavam para ser violadas. Simplesmente não queria ser 'entrada' ou 'penetrada'. Sexo com ele não era a soma do seu prazer, mas, antes, é o preço que deveria pagar por ele." pg 11

Para quem nunca leu Ian McEwan (autor que virá pra Flip mês que vem) Na Praia pode ser uma boa introdução. Nele podemos ver como, mesmo numa novela, tão curtinha, ele consegue se concentrar tanto em detalhes, em pormenores, para construir uma narrativa que fala de muito mais do que ele narra.

A história gira em torno da noite de núpcias do casal Edward e Forence e das dúvidas e hesitações antes da primeira noite deles. É começa dos anos 60, eles são jovens e recatados, uma educação considerada tão antiquada hoje em dia, cheia de mesuras. McEwan reveza a narrativa entre a ansiedade de Edward na proximidade de sua primeira relação sexual e do medo/repulsa/hesitação de Florence em relação a isso. Ela o ama muito, mas nunca gostou da parte física da relação, vamos dizer assim.

E boa parte desta novela se passa nessa troca de pensamento dos personagens, ninguém consegue externar o que estão sentindo. Porém tomam atitudes que podem levar tudo a perder (ou a ganhar, dependendo do lado da história). E isso deixa o clima ainda mais tenso, mais pesado e opressor, num cenário tão agradável.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Don´t Say a Word - romance mulherzinha

Barbara Freethy foi A minha descoberta do ano no quesito “escritora de livros mulherzinhas”. Já li 3 livros e, seja escrevendo thrillers românticos, seja escrevendo folhetins, ela é ótima! Eu ficava sempre me perguntando por que nenhuma editora a publicava no Brasil e eis que fuçando na seção de pré-venda descubro que Novo Conceito vai publicar, mês que vem, um dos primeiros livros que ela escreveu (ela tem outros livros escritos sob pseudônimo). Além disso, esse ano ela concorre ao Rita, na categoria “Best Contemporary Single Title Romance” com At Hidden Falls (que eu vou resenhar no meu “especial” sobre o Rita Awards, em julho).

Don´t Say a Word é um thriller romântico dos melhores: começa com Julia DeMarco, locutora de rádio em San Francisco que, numa visita a um museu, se depara com uma foto que muda toda a sua vida.  A imagem, capturada por um fotografo americano num orfanato na antiga União Soviética, mostra uma garotinha que é a imagem exata de Julia quando criança. Como isso é possível? Ela tem certeza (e tem documentos para provar) que nasceu nos EUA.

Como o fotografo responsável pela foto está morto, ela procura o filho dele, o também fotografo Alex Manning, para tentar saber mais sobre as circunstâncias em que a foto foi tirada.  A partir daí, Julia e Alex iniciam uma investigação que acaba revelando segredos guardados há mais de 25 anos. Segredos que envolvem a mulher que ela sempre acreditou ser sua mãe, agentes do governo americano e soviético e um fotografo que aparentemente era mais que simplesmente um repórter fotográfico.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Poemas – Rainer Marie Rilke

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Hora Grave
Quem chora agora em algum lugar do mundo,
sem razão chora no mundo,
chora por mim.

Quem ri agora em algum lugar da noite
sem razão se ri na na noite,
ri-se de mim.

Quem anda agora em algum lugar do mundo,
sem razão anda no mundo,
vem pra mim.

Quem morre agora em algum lugar do mundo,
sem razão morre no mundo,
olhe pra mim.

pág. 83

Este poema retirado de O Livro das Imagens dá o tom do que é a poesia do austro-hungaro Rilke, simples na forma mas intensa no conteúdo filosófico. Mas não se deixe enganar pela simplicidade do pensamento poético deste poema, a poesia de Rilke é uma faca de dois gumes: Há os que adoram e os que odeiam, mesmo que ela tenha uma extensão grande e formas variadas, essa imagética criada por seus versos são sua maior constante, o que o faz muitas vezes ser considerado hermético. O grande mérito da edição é fazer um apanhado cronológico da produção, ficando explicita a mutação que a poesia do autor sofreu durante os anos. Tudo isso acompanhado por uma verdadeira dissertação de mestrado como introdução, do grande José Paulo Paes.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

A Zona do Desconforto - Jonathan Franzen









"Cada vez mais, eu apresentava duas versões diferentes de mim mesmo, a versão oficial, de um rapaz de cinquenta anos de idade, e o adolescente extra-oficial. Chegou um momento em que minha mãe me perguntou por que todas as minhas camisetas estavam desenvolvendo furos no nível do umbigo. A versão oficial de mim não tinha resposta; mas o adolescente extra-oficial sabia. Em 1974, camisetas brancas de gola redonda usadas por baixo da camisa eram vistas como suicídio em matéria de estilo, mas minha mãe vinha de um mundo em que as camisetas coloridas pareciam ter a mesma estatura moral das camas d'água e das pinças para pontas de baseado, e se recusava a me deixar usá-las. Toda manhã, portanto antes de sair de casa, eu puxava minha camiseta para baixo até que a gola parasse de aparecer, e prendia a barra às minhas cuecas. (Ás vezes os alfinetes se abriam e me espetavam a barriga, mas a alternativa - sair sem camiseta alguma por baixo- teria feito com que eu me sentisse nu demais.) Sempre que eu tinha uma chance, ia até o banheiro e trocava as camisas mais comprometedoras. Minha mãe, em seu esforço de economizar, preferia as camisetas mais baratas com a gola da malha, quase sempre de poliéster, o que me deixava ao mesmo tempo com cara de filhinho obediente e de golfista de meia-idade, e ainda irritava meu pescoço como que para não me deixar esquecer da vergonha de usá-las."
Página 114

Autobiografias sempre são interessante e, ao mesmo tempo, perigosas fontes de informações. Digo isso porque no caso de hoje estamos falando de um autor de ficção que pode ou não estar contando a verdade. Pode nem chegar a ser uma mentira, mas ele pode mudar ou até suavizar uma situação. Não é o caso de hoje, mas na minha estante tenho dois exemplos extremos. Tenho a trilogia de J.M. Coetzee, que escreveu suas supostas memórias nos livros Infância, Juventude e Verão, sendo que nesse último ele investiga a vida de um escritor que acabou de morrer chamado... J.M.Coetzee! Ao mesmo tempo eu tenho outra trilogia do brilhante autor Elias Canetti (A língua absolvida, Uma luz em meu ouvido e O jogo dos olhos). Ainda existe outra que ainda não tenho na estante, mas que eu espero compartilhar aqui n'o Espanador, que são as memórias de Pedro Nava, recém lançado pela Companhia em belíssimas edições.

Seja qual for o caso, autobiografias são formas simples de tentar entender a complicada cabeça de autores. No caso de hoje, um dos mais badalados escritores dos últimos anos, aclamado como o lançamento do século, por Liberdade, Jonathan Franzen.

Ao mesmo tempo que é um autor badalado, também tem sua dose de polêmica e é um pouco ranzinza.

Mas eu prometo que falo mais do autor na sexta-feira no nosso post especial sobre os autores da FLIP. Hoje vou me concentrar somente em A Zona de Desconforto- Uma História Pessoal.

Franzen narra de uma forma direta e irônica sua infância e adolescência no centro dos EUA durante a época de ouro da classe média americana.

sábado, 26 de maio de 2012

Arkham Asylum - Grant Morrison & Dave McKean

Podíamos fazer uma lista e tentar descobrir qual é a graphic novel mais Dark do Batman, mas isso seria quase impossível. Ou você tem um futuro distópico à la 1984, ou uma caracterização extremely real do começo da vida de super-herói, ou um quadrinho que apaga as linhas entre o Homem-morcego e seu nêmesis, ou um um quadrinho que mata o  principal aliado do morcego ou ainda um que joga na sua cara que o herói mais sombrio do mundo, é na verdade um esquizofrênico incurável. O mundo e os enredos de Batamn são muito próximos do nosso mundo real , e talvez por isso ele seja o herói mais "fantástico" do mundo dos quadrinhos, mas é ineg´vael que se formos olhar pelo visual das comics com certeza que por mais que Mazzuchelli seja fantástico, o traço de Miller é único  aversão em preto-e-branco tenha seu estilo, a graphic mais dark que já foi concebida para o Homem morcego é Arkham Asylum.

Isso porque é nada mais nada menos, que desenhada pelo poderoso Dave McKean, o artista que ilustrou e concebeu todas as capas de Sandman, o traço de mckean porém não é uma coisa simples de se descrever. Se fosse chutar o segredo do cara seria na combinação perfeita de cores que ele concebe e mescla de maneira caótica e harmonica, mas eu não vou nem tentar deem uma olhada no poder gráfico desse material.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Aquecimento FLIP – J.M.G. Lé Clézio

LeClezio
Quando O Nobel de 2008 foi divulgado para Lé Clézio, o mundo literário brasileiro já fazia aquela cara de questionamento, who the hell is Lé Clézio. Na época com um livro em alta, O Africano, pensávamos todos que era mais um ilustre desconhecido que o Nobel revelava ao mundo internacional como o ganhador de 2011, Thomas Transtörmer, entretanto a história e a vida nos ensinam que nem sempre nossa perspectiva é a mais correta. Comecei a duvidar dessa informação quando acidentalmente esbarrei na lista de obras do escritor e me deparei como uma gigantesca obra cuja a sombra nós nem temos ciência, tanto é que a grande obra-prima até onde o horizonte da minha investigação conseguiu alcançar… foi traduzida ao português brasileiro em 1987 pela Brasiliense e continua espera de reedição: Hello Editoras!

quinta-feira, 24 de maio de 2012

AOKI











Este é o terceiro livro de uma coleção primorosa traduzida pela Cia das Letrinhas. LINDO.

Depois de passear com Kiimiyo e Yumi conhecendo quimonos e tradições, é a vez de visitar Yoko em Tókio, a amiguinha da Aoki. Os dois primeiros volumes já foram resenhados aqui no blog (confira aqui).

Annelore Parot é puro cuidado em seus livros. Uma francesa que buscou inspiração na delicadeza da cultura oriental. É muito recomendável a coleção, sem exageros. Se você se interessa pela perfumaria de livros como patterns, coisinhas kawai, ilustração vetorial, cores espaciais, multiplas facas, vai adorar o livro. E se você se interessar por cultura japonesa, inteligentes livros infantis, e intereção, também não pode deixar de conhecer.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

A Décima Terceira História


“Vidas – de mortos – são apenas um hobby para mim. Meu verdadeiro trabalho é na livraria. Meu trabalho não é vender livros - meu pai faz isso -, mas cuidar deles. (…) Afinal de contas ler de certa forma é cuidar.
As pessoas desaparecem quando morrem. Sua voz, sua risada, o calor do seu hálito. Sua carne. Finalmente, seus ossos. Toda lembrança viva delas desaparece. Isso é ao mesmo tempo terrível e natural. Entretanto, para algumas há uma exceção para essa aniquilação. Pois, nos livros que escrevem, elas continuam a existir. Nós podemos redescobri-las. (…) Por meio da palavra escrita elas podem deixar você zangado ou feliz. Elas podem conforta-lo. Elas podem surpreendê-lo. Elas podem muda-lo. Tudo isso embora estejam mortas. Como moscas em âmbar, como cadáveres congelados, aquilo que pelas leis da natureza deveria desaparecer é preservado pelo milagre da tinta sobre o papel. É uma espécie de mágica.”  (Pag. 27)

É possível um livro contemporâneo ser gótico? Foi isso que eu pensei assim que comecei a ler esse livro. Está tudo lá: a casa sombria, o nevoeiro, os mistérios, os fantasmas, os amores proibidos ou inapropriados… O “clima” pesado que só esse tipo de história tem.

O livro é narrado em primeira pessoa, por Margaret Lea, filha de um livreiro especializado em livros raros e biografa hesitante, que recebe um convite para escrever a biografia de Vida Winter, escritora de sucesso que vive isolada no interior da Inglaterra. Vida Winter é conhecida por já ter dado várias versões sobre acontecimentos de sua vida. Será que agora, ela contará a verdade?

terça-feira, 22 de maio de 2012

Senhor Henri e a enciclopédia – Gonçalo M. Tavares

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O senhor Henri disse: este honrado estabelecimento tem tido a honra de assistir a alguns dos mais famosos discursos do senhor Henri, eu próprio, aqui presente nesta oportunidades.

… mais um copo de absinto, por favor – pediu.

… hoje, por exemplo vou falar-vos do microscópio.

… o microscópio é um instrumento inventado para fazer grandes coisas pequenas, enquanto os políticos são instrumentos inventados para fazer pequenas coisas grandes.

…o microscópio foi inventado na Holanda, em 1590.

… no meu modesto entender deveria existir uma data assinalando o momento da invenção de um instrumento e uma data assinalando o momento da desinvenção desse mesmo instrumento.

… quando uma invenção fosse ultrapassada pelo acontecimento, deveria efetuar-se uma cerimônia de enterro com todos os rituais de uma grande despedida.

… exatamente como as pessoas; uma data de nascimento e uma data de morte.

… paz à sua alma.

pág 57

Eu era um bêêêbado… que vivia drogado… hoje estou curado. Encontrei JESUS! ENCONTREI JESUS!… e quem não lembra da nostalgia de escutar essas pérolas líricas que grudavam na sua cabeça como chiclete na sola do tênis. (E tocando na sua cabeça logo mais: Água Mineral, que é natural e pra você ficar legal) Bons tempos… ainda bem que evoluímos, mas esse não é um post musical entretanto enquanto lia o Senhor Henri pelo tom debochado da narrativa para um assunto bem sério como o alcoolismo, ele não saiu da cabeça e como ela vai continuar por algumas semanas no meu sapato. Mas de certa maneira a música reflete também o espírito da narrativa do livro: algo bem humorado, com suas sacadas próprias mas cuja o sentido e profundidade não vão nem resvalar numa homenagem ao sofrimento da poesia de Henri Michaux, quando no máximo revelar o patetismo de um bêbado… filósofo.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Segundos Fora - Martín Kohan











-Gustav Mahler costuma dizer uma coisa muito interessante. Gustav Mahler, o músico boêmio. Mahler dizia que em vez de dar as partes mais expressivas de sua música aos instrumentos de maior expressividade, por exemplo aos violinos, dava-as aos mais duros, aos metais, a um trompete ou a um trombone. Interessante, não? As partes mais expressivas para os meios menos expressivos. Interessante.
-Eu não capto muito bem esse negócio. Parece meio bobagem... Imagine se o Firpo, na hora do nocaute, em vez de pegar pesado na porrada resolvesse pegar leve. O que o senhor ia achar de uma pessoa que fizesse isso? Que é um idiota.
-Não seja burro, Verani, faça-me o favor.
-O que o senhor está dizendo não faz sentido. Não tem pé nem cabeça.
-Não sou eu que estou dizendo, imagine. Gustav Mahler é que dizia.
-Tanto faz, Ledesma, não enche. É besteira, isso, de qualquer jeito é besteira.
-Eu não entendo, realmente não entendo essa sua teimosia. Que mania de quere comparar uma coisa com a outra.
-O que o senhor está dizendo não tem pé nem cabeça.
-Uma luta de boxe, derrubar o outro, machucar o outro. E uma sinfonia, no caso a primeira, de Gustav Mahler. Evidentemente o senhor não faz ideia do que eu estou falando.
-O senhor vem e me diz: as partes delicadas da musiquinha tocadas a porrada. Não faz sentido.
-A gente nunca sai do mesmo lugar, Verani, porque o senhor continua decidido a não ouvir nem um pedacinho da obra?
-É que eu durmo Ledesma, o que é que eu posso fazer?
-Mas não estou falando de uma sinfonia inteira. Só um pouco, para saber do que se trata.
Página 9

Uma das coisas mais bacanas da ficção é poder mergulhar (ainda que pra isso as pesquisas sejam extensas) em fatos reais e, a partir daí, conseguir recriar toda a atmosfera de situações que, de alguma forma, não conseguimos presenciar, somente ouvir e ler relatos por outros meios.

Ainda que eu veja historiadores reclamando do que eu vou falar agora, em boa parte das vezes eu fico tão intrigado com a história que quase que a ficção passa a ser a verdade. Talvez um pouco de exagero, eu consigo discernir a ficção da realidade, mas fico intrigado quando algum livro consegue tornar essa 'verdade' mais complicada de diferenciar da ficção.

O livro de hoje consegue recriar uma cena importantíssima na história do esporte e também cultural da Argentina em setembro 1923.

Segundos Fora tenta recriar a luta histórica entre o Campeão Mundial dos Pesos Pesados, o americano Jack Dempsey e o argentino Luis Ángel Firpo (conhecido pelo carinhoso apelido "El Toro Salvaje de las Pampas"), que ficou eternizada da pior maneira possível. Firpo simplesmente nocauteou Dempsey para fora do ringue, mas o juiz não começou a contagem quando foi preciso e deu chance de Dempsey voltar ao ringue. Passaram-se 17 segundos da queda de Dempsey, sem que o juiz notasse. 

E pensar que ele só precisaria de apenas 10 segundos na contagem, para se tornar o verdadeiro campeão (Dempsey voltou ao ringue e em seguida nocauteou Firpo).

Outro acontecimento decisivo para a época foi à apresentação da sinfonia de Gustav Mahler no Teatro Colón, em Buenos Aires regida por Richard Strauss.

Esses dois acontecimentos vão ser lembrados mais de 50 anos depois na edição comemorativa de um jornal de uma pequena cidade chamada Trelew, na Patagônia.