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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Guerra e Paz - Liev Tolstói






Foram quase dois meses de uma leitura intensa e prazerosa, 2.500 páginas para conseguir superar a verdadeira barreira que é esse romance monumental de um dos maiores escritores russo: 
Guerra e Paz de Liev Tolstói.

Um dos meus maiores desafios foi exatamente ler um livro desse tamanho que exige um outro tempo, mais lento, antigo, daqueles que a gente não viu nunca mais.

Já havia lido outros romances de Tolstói e encarado Anna Karenina, e suas 800 páginas, e me dava por satisfeito (na verdade acho que isso nunca ocorre com algum autor que já conhecemos e sabemos de sua qualidade). Foi quando soube dessa nova edição traduzida diretamente do russo pelo grande Rubens Figueiredo (que já havia traduzido Anna Karenina) e soube o projeto gráfico no mínimo espetacular. A partir daí foi crescendo aquele desejo de saber realmente o que teria de tão especial nesse livro, que foi um dos mais comentados do final do ano passado.

Curioso pensar que é um livro que boa parte das pessoas consegue compreender no geral, mas apenas superficialmente, como acontece com alguns clássicos e por mais que seja meio repetitivo eu sempre gosto de relembrar de Calvino em seu Por que ler os Clássicos:

"Os clássicos são livros que, quanto mais pensamos conhecer por ouvir dizer, quando são lidos de fato mais se revelam novos, inesperados, inéditos".

Pois foi exatamente o que aconteceu comigo. Até mesmo por esses livros carregarem todo esse 'peso', a gente se assusta e deixa um pouco de lado, parte pra uma leitura mais "simples" ou dentro da nossa própria zona de segurança (no meu caso, Nick Hornby é facilmente um desses casos), e falando isso não quero desmerecer nenhum tipo de leitura. O que eu realmente quero dizer é que ainda que esse não seja o seu livro, vá atrás de um clássico e seja feliz. Vai valer muito a pena e, talvez, você consiga enxergar o mundo de outra perspectiva.

Pra quem ainda não sabe vamos a um pequeno resumo da história.

Esse é um romance sobre a Era Napoleônica e principalmente sobre a invasão da Rússia, feita por Napoleão e seu exército. Mas é claro que esse é apenas o seu fundo histórico.

O livro começa em 1805, ano em que ficou conhecido pela batalha travada em Austerlitz, onde Napoleão conseguiu uma das suas maiores vitórias frente ao exército austro-russo comandada pelo seu imperador Alexandre. A história começa um pouco antes dessa batalha, ainda dividida entre Moscou e Petersburgo, onde alta sociedade mora e vemos os personagens principais que vão nos acompanhar por longos anos.
Seria impossível conseguir explicar todos os personagens do romance então vou falar de três que conduzem praticamente todo o livro: Nikolai Rostov, Andrei e Pierre.

Desses, o Conde Pierre Bezhukov é de fato o 'personagem principal', se é possível dizer um absurdo desses. Pierre começa o livro como o filho bastardo de uma das pessoas mais ricas e influentes de Moscou e que está à beira da morte. Como toda família rica, esta fica alvoroçada por conta de herança e como todo um bom dramalhão (Tolstói gosta disso), o filho bastardo herda tudo e, se antes ele era visto como uma pária, ou não exatamente isso, mas alguém jovem e completamente irresponsável que não é muito bem visto por suas opiniões, em particular sobre Napoleão.

Andrei Bolkónski (meu personagem favorito) é um jovem idealista, correto, que apesar do comportamento excêntrico do pai, um velho príncipe (o título de príncipe não é o mesmo que nós conhecemos) lembrado por todos, mas que já está muito velho. E mesmo sendo muito diferente de Pierre, uma grande amizade nasce a partir de encontros, bailes e festas (que parece ocorrer o tempo todo).

Nikolai, da família dos Rostov, famosos por seus salões e principalmente pela companhia das jovens Natália, Vera e Sonia. Sente que sua única vocação é o exército e resolve se inscrever junto aos hussardos.

Na alta sociedade o maior comentário era sobre Napoleão, alguns receosos e outros empolgados com esse enigma que começou a abalar as monarquias e invadir países. Em 1805 o sentimento era um misto de admiração e um pouco de medo por não saber exatamente do que ele era capaz. Mas isso é muito irônico visto a influência da França na Rússia. A começar pelo livro onde os personagens falam francês em boa parte do tempo (deixado no idioma original e com notas de rodapé traduzindo o texto, o que eu achei muito correto). Ou seja, ainda que eles criticassem Napoleão era inegável a força da cultura francesa na Rússia. Ela já estava dominada antes de qualquer outra coisa.

Tentar continuar todos os caminhos que conduzem o livro seria uma perda de tempo e estragaria a surpresa que é descobrir cada detalhe desse livro impressionante. Basta dizer que vamos acompanhar de perto as batalhas de Austerlitz e todas outras, sendo a principal a invasão de 1812, pelo olhar de Andrei e Nikolai, que estão no exército e a sociedade Russa (Moscou e Petersburgo) e pelos olhos de Pierre, que ao longo do livro entendemos nele um dos principais questionamentos de Tolstói, que, em sua busca desesperada por uma vida que tivesse um pouco mais de sentido e paz de espírito, ele passa por diversas coisas (entre elas a maçonaria) em busca dessa paz (curiosamente é possível estabelecer uma relação muito clara entre o próprio Tolstói, que na sua fase jovem teve problemas com bebida e apostas, e mais tarde ele mesmo condenou sua juventude ao encontrar o cristianismo).

Lembro que quando eu li Anna Karenina, a maior qualidade que eu encontrei em Tolstói foi a capacidade da mudança de visão dos personagens. Em um momento estamos falando com um personagem, que passa para outro completamente oposto e vemos o lado dele, que vai passando, em seguida, sem se perder em nenhum momento e muito pelo contrário, faz você querer ir ainda mais longe. E se já achava isso digno de nota, aqui é um dos fatores mais importantes que fazem a leitura de Guerra e Paz, um verdadeiro passeio pela Rússia e a boa literatura.

Logo na bela apresentação do tradutor Rubens Figueiredo, temos um rápido contexto sobre o que vamos ler e lá tem algo que me intriga muito, que é a farta pesquisa que Tolstói fez ao escrever Guerra e Paz, com diversos historiadores, documentos e testemunhos orais colhidos por ele mesmo. Parece lógico e simples que se a intenção dele era recriar essa época, que ele fizesse essa pesquisa... Mas a minha surpresa foi o modo da abordagem e a descoberta que Guerra e Paz é um romance histórico (parece simples, mas fiquei muito impressionado ao me dar conta disso).

Isso porque Tolstói retrata Napoleão da forma mais fria e realista possível, afastando completamente a lenda do estrategista carismático que ouvimos falar. Ao invés disso, ele retrata um homem completamente egoísta e distante dessa figura mítica construída por muitos historiadores (principalmente Thiers, biógrafo oficial de Napoleão), e exatamente esse é o foco principal do livro: não dar toda a importância a figuras como Napoleão, Kutuzov (general Russo) ou ainda o Czar Alexander. Ele questiona essa suposta força dos comandantes que conseguem que a história seja recriada por sua vontade e não pelas mãos de milhares e milhares de pessoas que executam essas ordens. E, em contrapartida a esses "líderes", existem aquelas pessoas a quem Tolstói realmente admira e descreve cenas simples com o maior prazer, sejam eles os camponeses, cossacos e ou mesmo soldados comuns. Existe uma inversão de valores nessas cenas. E nisso também vem uma das grandes qualidades de Tolstói (e boa parte dos russos da época), que é essa relação do autor e o livro em si com a sociedade, completamente enraizado em seus problemas e características.

Além disso, existe um realismo muito forte e intenso nas descrições das batalhas e principalmente perceber o poder que o Czar tinha sobre a população, uma verdadeira devoção.

Existe muito mais, mas é preciso ler o livro.

Dito isso vamos a algo que seria um sacrilégio em não comentar um outro aspecto.

O capricho dessa edição da Cosac Naify é impressionante, um verdadeiro assombro digno do tamanho do livro. A começar pela capa toda em tecido (na verdade serigrafia) totalmente flexível, em papel bíblia (antes que alguém faça careta, não é transparente e funciona perfeitamente), dois volumes em uma caixa transparente. No final do livro ainda tem alguns apêndices úteis como nunca, como os mapas de onde estão acontecendo as batalhas e um glossário com referência a lugares e principalmente as figuras históricas reais que fazem parte do livro. Além disso, dentro do livro existem as ilustrações dos soldados de preto e azul que se sobrepõem como os exércitos russos e franceses (além de 2 fitilhos para pessoas que como eu marcam livros com notas de mercado e qualquer papel de rascunho que estiver no bolso).

E claro, deixei o mais importante para o final: A Tradução.

De nada adiantaria todo esse capricho não fosse a primorosa tradução de Rubens Figueiredo.

Foram mais de 3 anos para completar essa tradução e ela precisa ser louvada e celebrada mesmo.
Lembrei  de uma reportagem muito bacana que eu li da revista Piauí de Agosto, se eu não me engano (aqui o link), que fala dos nossos três principais tradutores do russo: Paulo Bezerra, Boris Schnaiderman e Rubens Figueiredo. Vale a pena ler sobre esses três autores que, de certa forma, conseguiram nos aproximar da literatura russa.

Mesmo com o reconhecimento na época do seu lançamento (em novembro do ano passado), isto é da importância que é ter uma obra traduzida diretamente de sua língua original (ainda mais se tratando de um idioma complexo como o russo). Eu li umas bobagens de algumas pessoas questionando a supervalorização e a suposta veracidade dessas traduções, ou ainda de gerações que nunca tiveram contato direto com essas traduções e tantas outras babaquices que me fizeram pensar nessa relação da crítica pela crítica somente para chocar ou aparecer mesmo. Reclamar de algo assim é criticar o próprio avanço dos nossos tradutores, de nossas edições e tantas outras coisas básicas.

Não acho o preço da edição lá muito barato, mas acho justo (quem não quiser, fique a vontade de comprar a edição da L&PM, e não reclama) e, no final das contas, paga quem quer.

Esse é um daqueles livros que te fazem pensar o quanto o livro impresso é algo extraordinário e sem comparação.

Que me desculpem e-books e tantas outras tecnologias.

Guerra e Paz
Liev Tolstói
Tradução de Rubens Figueiredo
Cosac Naify
2500 páginas

3 comentários:

  1. Olá,
    Sei que já faz bastante tempo que foi postado estes comentários, mas gostaria de saber se alguém tem esta edição especial de Guerra e Paz da editora Cosac Naify para vender.

    pauloandremariano@hotmail.com

    Grato!

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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