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sábado, 18 de fevereiro de 2012

Filhos da Viúva – Paula Fox

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(…) Carlos já estava conversando com Peter Rice, mas Laura continuava olhando para ele. O sorriso estava murchando, porém. Ela estava aborrecida? Será que a tolice que ele dissera sobre negócios tinha se soado mesquinha? Como ela poderia acusá-lo de mesquinhez se ele mal sabia como o negócio era tocado? Os lacaios faziam o serviço. E ela certamente gostava de renda, para não falar do fato de que ele era praticamente o único esteio da mãe daqueles – daqueles bebuns.  Era isso que eles eram, pensou, encarando Carlos com raiva. Bebuns, fazendo pose de lordes, mantendo aquele ar de indiferença diante do dinheiro e de onde ele vem, até sentirem um apuro. Então, como eles se transformam! Deu uma risadinha abafada e voltou as costas para o aposento. Quanta bebida eles tinha consumido! A bebida dele. E pagaria o jantar também. Eles iriam rir e tagarelar no restaurante, mas ficariam de olho nas mãos dele, para garantir que ele sacasse a carteira assim que o garçom se aproximasse! Sabia tudo sobre a cobiça de Laura. Serviu-se de uma dose, deixando uma polegada de Bourbon na garrafa. Mas a cobiça dela era diferente da de qualquer outra pessoa; tudo nela era diferente. Ele a vira quase fora de si de desejo por algum objeto, e em seguida ela esquecia a coisa, em um minuto estava rindo da extravagância de seus próprios sentimentos, fazendo troça de si mesma, tomando a mão dele e fazendo uma recriminação solene do espírito de porco do caráter latino. Ela vivia falando nisso, no caráter nacional. O dela própria, por exemplo. Mas estava totalmente errada nesse terreno, com toda aquela besteirada de que os irlandeses eram bêbados e mentiroso.

Na noite anterior a seu casamento com Laura, Desmond se sentara na sala de estar do apartamento que eles tinham alugado aquele verão e escrevera num papel as razões pelas quais tinha se casado. Na época, ele julgara que estava fazendo uma coisa estranha e romântica. Chegara a pensar naquilo como uma espécie de presente de casamento, embora nunca a tivesse deixado ler o que escreveu: queimou o papel no banheiro uma semana depois.” Vida de classe média é tediosa” tinha escrito, “e a gente mal percebe que está vivo. O estilo de minha Laura… ela não calcula custos…”
pág. 66-67

Paula Fox é atualmente o Murilo Mendes da Literatura Americana, não porque se assemelha a estética estranha do poeta brasileiro, que eu admiro muito alias, mas sim pelo fato de estar em processos de redescoberta do parte da crítica. Paula primeiramente sempre foi vista como uma autora juvenil, vide que sua produção para essa faixa etária é bem extensa chegando a ganhar o cobiçado Hans Christian Andersen em 1974 por Slave Dancer. Em segundo plano sempre foi lembrada por sua história trágica, ao ser abandonada quando recém-nascida, sendo criada em Mosteiro até  a fase em adulta, em que por ironia do destino, entregou sua primeira filha a adoção. Essa história ficou conhecida pois a filha de Paula, Linda Carrol, descobriu sua mãe biológica muito tempo depois e ela teve uma filha que é nada menos que Courtney Love. E só depois disso é que se chega aos romance em si que a autora produziu durante três décadas. Seis romance em que um tema parece muito claro: A solidão, e em especial a solidão da família em suas diversas formas.


Talvez por que o mundo é mais cinza no século XX, estas histórias estejam sendo revisitadas. No Brasil, a Record publicou Pobre George, seu primeiro romance, ambientado na classe média americana, com um casal em crise e um curioso visitante na vida deles. E a Companhia das Letras publicou a obra prima da autora Desesperados em 2007, que se trata de uma mordida de gato que suscita todos os tipos de emoção na protagonista: Uma mulher da classe média na década de 60, e desestabiliza o casamento que já estava preso por um fio. A Costa Oeste, lançado em 2010, mostra uma jovem na transição para a vida adulta em meio aos anos da Segunda Guerra, entretanto ela vive alienada do mundo e sofrendo a transição e conflito com sua família. Filhos da viúva, por sua vez, vai pelo caminho contrário ao mostrar não o primeiro embate com a vida, e sim os últimos suspiros. Já são 70% da obra da autora, que mostra a aptidão pelos conflitos humanos.

Em filhos da viúva, a história é simples como a maioria das outras, os personagens é que dão a tônica do drama do romance, sendo muito bem delineados e com ramas sendo descritos lentamente até uma explosão final. É também um enigma humano, que pode suscitar várias análises ou a incompreensão ao seu final. É briga entre mulheres de várias idades vivas e mortas.é também a indignação da autora para com sua mãe no fundo.

A personagem principal é uma latina poderosíssima na decadência da beleza aos 50 anos, e no ápice de seu veneno para com os outros. Laura é uma personagem fascinante que orquestra uma reunião familiar, que rumará a África logo após, mas recebe a notícia de que sua mãe, a viúva do título, faleceu no asilo. O passo seguinte seria uma exposição de sentimentos e contar para os entes familiares. Ou pelo menos seria para um ser humano normal, certo? Bom Laura, faz exatamente o contrário e não demonstra um pingo de sentimento e não conta aos convidados do jantar. O por que disso é o que intriga, pois não é dada explicação a princípio e dentre todos os personagens Laura é a que tem menos monólogos. Ela é o ser estranho que todos tem uma opinião, quase sempre ruim e função da personalidade explosiva, para não dizer bipolar. Isso é construído por meio de monólogos como o do trecho, no caso de seu marido Desmond.

Dentre os coadjuvantes temos, o marido que é um pouco mais novo que ela, muito mais rico que qualquer e um alcoólatra sem noção de seu nível. Sua filha Clara, que ao contrário da mãe é um ser tímido, calado e completamente introspectivo. Os irmãos Carlos, que é condenado na família por ser homossexual e é completamente afetado. Eugênio, o outro irmão que na primeira parte do livro, aparece muito pouco, é excluído da roda social da família e pelo pouco que aparece parece ter algum problema mental. O outro personagem principal é Peter Rice, o único convidado que não é da família, um editor melancólico que parece amar Laura secretamente. Todos tem cordões umbilicais que não se rompem e todos temem Laura por algum motivo. O jantar conforme o nível alcoólico vai avançando, vai se tornando mais uma lavagem de roupa suja do que um encontro entre amigos e os dramas vão aumentando.

Quando tudo termina de maneira igualmente intrigante, Laura tem uma brainstorm a respeito da mãe e aí que ela resolve contar aos demais o que aconteceu, e encarrega Peter Rice de varar a madrugada para contar aos irmãos, menos para Clara. Essa questão da segunda parte é essencial para o final do romance que se revela como um estudo dos mecanismos que nos fazem repugnar ser como os pais. Aqui a medula é: Alma, a falecida, cuja a história conhecemos pouco pela boca dos filhos mas dá para ver que ela foi uma mulher forte na década 20, tentando sustentar os filhos. Laura, a protagonista, com suas explosões e personalidade fascinante. E Clara, que é a personagem amis sem-sal até o final do romance em que ela se revela um “monstro” tão assustador como os demais personagens.

É um romance fascinante em seu minimalismo. Pois ao contrário da literatura moderna seu atrativo está na construção das personagens e nos diálogos minimamente pensados para delinear as personalidades. Em muitos momentos me lembrou um peça de teatro, ou aqueles filmes em que a ação não sai de um lugar só como o ainda inédito Carnage e esse tema do ódio entre as pessoas, ainda me lembra a célebre peça Entre quatro Paredes, do Sartre . Por essa habilidade de construir narrativas da solidão (aqui a solidão é conjunta) de uma maneira mais clássica e direta, é o grande trunfo que faz Paula Fox ser cada vez mais lida e redescoberta. Vale muito a pena.

Título: Filhos da Viúva, Os
Autor: Paula Fox
Tradução: José Geraldo Couto
Editora: Companhia das Letras, 240 pp

P.S. alias esse livro nasceu para virar um filme estrelado pela Sofia Vergara, pois a descrição de Laura é idêntica a da atriz do modern Family.

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