E-mail

ATENÇÃO! NOSSO E-MAIL MUDOU!!! PARA ENTRAR EM CONTATO, ESCREVA PARA: espanadores@gmail.com



segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Convidado da semana: Romancista ingênuo e o sentimental - Orhan Pamuk


Por Ivan

O interesse por ensaios literários escritos por autores renomados ou livros que tratem ou dissequem o processo de criação literária - também escritos por grandes ficcionistas – vem crescendo nos últimos anos. Seja pelo aumento de cursos de criação (oficinas) literária e o desejo das pessoas de se expressarem através da escrita ficcional ou pela própria necessidade dos escritores de compartilharem suas ideias e experiências com os leitores, o fato é que o mercado editorial tem recebido mais títulos desse tipo e o público parece receptivo à novidade.

Publicado em novembro passado, O romancista ingênuo e o sentimental, do turco Ohran Pamuk, da Companhia das Letras, é um dos livros que se enquadram nesse gênero. Baseado em conferências realizadas pelo Prêmio Nobel de Literatura de 2006 na Universidade de Harvard, o livro traz um pouco da experiência literária de Pamuk e o que a arte do romance significa para ele.


O título do livro remete ao ensaio escrito em 1796 pelo poeta e crítico alemão Friederich Schiller, Sobre a poesia ingênua e sentimental. Neste ensaio, Schiller divide os poetas em dois grupos: os ingênuos e os sentimentais. O primeiro grupo, segundo Schiller, escreve poesia espontaneamente, quase sem pensar, não se dando ao trabalho de considerar as consequências intelectuais ou éticas de suas palavras e não se importando com os que outros possam dizer. “Os ingênuos estão irmanados com a natureza: na verdade, são como a natureza – calma, cruel e sábia”, afirma o alemão, que coloca neste grupo Dante, Shakespeare, Cervantes, Goethe e Laurence Sterne – autor de Viagens Sentimentais do cavalheiro Tristan Shandy de quem Schiller tirou o título de seu ensaio.

Já o poeta sentimental, no qual o próprio Schiller se inclui, se inquieta porque “não sabe ao certo se suas palavras vão abarcar a realidade, se vão alcançá-la, se seus enunciados vão transmitir o sentido almejado por ele”. O poeta sentimental teria se afastado da simplicidade e da força da natureza e, perdendo-se em suas emoções e nos próprios pensamentos, tem plena consciência da técnica e dos métodos utilizados na construção de sua obra.

Essa discussão serve de base para o primeiro ensaio do livro, O que nossa mente faz quando lemos um romance, e será neste texto também que Pamuk irá lançar algumas ideias que serão aprofundadas nos ensaios posteriores como, por exemplo, quando afirma que transformamos as palavras em imagens mentais. Discorrerá sobre esse assunto no quarto ensaio, Palavras, quadros, objetos, relembrando que, quando jovem, seu primeiro interesse foi a pintura e das semelhanças entre as duas artes. 

Afirma ainda que a arte do romance é essencialmente visual e compara a imaginação visual de Tolstói e a sua capacidade de encantar o leitor em cenas memoráveis com a imaginação verbal de Dostoiévski que nos traz um conhecimento ou descobertas profundas, por vezes assustadoras, sobre nós mesmos, sem, no entanto, utilizar-se de descrições exuberantes para transmitir as sensações ou pensamentos das personagens como fazia seu compatriota.

Outra ideia que será desenvolvida, desta vez no segundo ensaio, Sr. Pamuk, tudo isso aconteceu realmente com o senhor?, é a pergunta que todos nós pegamos nos fazendo, às vezes, ao ler um livro do qual gostamos: até que ponto aquilo que é contado aconteceu de verdade com o autor ou foi imaginado por ele. Nesse texto, o autor também faz a divisão dos leitores em ingênuos e sentimentais, afirmando que o primeiro sempre lerá uma obra de ficção como se fosse uma autobiografia e, o segundo, sempre acreditará que todo texto é uma ficção e que nela não incidirá nenhuma vivência do autor. Os dois tipos, porém, Pamuk vaticina, “são imunes às alegrias de ler romances”, por isso o leitor ideal seria aquele que consegue equilibrar-se entre os dois extremos.

O sexto e último ensaio do livro, O centro, talvez seja o mais explícito quanto à opinião do Nobel sobre a execução e o sucesso que um romance pode alcançar tanto para o autor quanto para o leitor. Para Pamuk, “o centro é uma profunda opinião ou insight sobre a vida, um pouco de mistério, real ou imaginário, profundamente entranhado que o próprio romancista por vezes desconhece antes de começar a escrever”. 
Na sua opinião, os romancistas escrevem para investigar esse local e descobrir suas implicações, sabendo de antemão que serão lidos com este mesmo espírito. Já, para o leitor, a tarefa seria a de descobrir o significado ou a ideia principal do livro, o que o autor tentou passar através de todas aquelas palavras e imagens contidas em sua obra. 

O segredo do sucesso, para o escritor turco, seria não deixar tanto a mostra o centro do livro – como fazem os livros de literatura barata, policial, histórias de amor - para não tornar a leitura algo repetitivo, nem deixar o centro inacessível, como fazem os autores mais herméticos. Para Pamuk: “A distância entre a história narrada e seu centro é um sinal do brilho e da profundidade do romance” e cita, como exemplo, um prefácio que Borges escreveu à edição de Bartleby, o escrivão, de Melville, falando sobre a leitura de Moby Dick.

Independente de qual seja o objetivo do leitor quando começa um romance – adquirir um conhecimento profundo sobre si mesmo ou apenas entreter-se – ou do autor quando começa a escrevê-lo – descobrir um sentido para a vida ou amealhar alguns trocados a mais na conta bancária – o que o Pamuk nos mostra em seu livro é que todos que recorremos à literatura procuramos basicamente uma mesma coisa: uma forma alternativa de transcendência e fruição às opções que a sociedade, de um modo geral, nos impõe no dia-a-dia.  


Ivan Ricardo Melz é formado em Jornalismo e trabalha na Livraria da Vila.


1 comentários: