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terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Cães Heróis – Mario Bellatin

caesherois2gde É difícil entender as circunstâncias que fazem com que o enfermeiro-treinador continue na casa sem receber nenhuma remuneração. Cada vez que o enfermeiro-treinador manifesta sua decisão de abandoná-lo, o homem imóvel cala suas palavras com a ameaça de mandar matar os animais. Ao ouvir isto, o enfermeiro-treinador sempre desce para o andar de baixo. Ali, junto à mãe e à irmã, conta que imagina uma matança muito selvagem. O enfermeiro-treinador imagina nesses movimentos tanto a pessoa capaz de levar a cabo a carnificina quanto os métodos a serem utilizados. O enfermeiro-treinador acredita que o verdugo será alguém encontrado através da Central de Informações. A mãe e a irmã afirmam que, diante de uma situação desse tipo, se trancariam em uma das jaulas.

No momento da matança, o homem imóvel pedirá que Annubis seja o primeiro animal a ser sacrificado. Logo depois de pronunciar estas palavras, diz sentir uma dor com regularidade. Então o enfermeiro-treinador abandona tudo o que estiver fazendo para começar uma massagem terapêutica. Se a dor não cede, o enfermeiro-treinador deve se introduzir na cama do homem imóvel para esquentar com seu corpo a perna dolorida. Para isso, primeiro livra-o do telefone amarrado a sua cabeça e depois o carrega da poltrona onde passa os dias até a cama situada debaixo da gaiola dos periquitos-australianos.
pág.62-64

Mario Bellatin tem um jeito muito curioso de escrita, é algo que poderia ser classificado como um tom mecânico e descritivo na prosa, que esconde uma violência terrível nas entrelinhas. Suas histórias flertam com o surrealismo e carregam uma grande carga de estranheza na sua forma. Eu somente digo na forma, pois você consegue reduzir as suas histórias à um parágrafo ou à uma ideia. O mesmo acontece com esta “novela”, que por trás de sua história esquisita é uma metáfora até batida.


Em “Cães Heróis” a história gira em torno de um homem que não se move, por algum motivo genético, mas que tem o dom de adestrar Pastores belgas malinois, esse bonitinho aí embaixo, que segundo a lenda é bem bravo:
Pastor Belga Malinois

Ele tem mais ou menos 30 animais enjaulados e os adestra por meio de ruídos. Sua mãe e irmã trabalham na mesma casa na parte de baixo, classificando sacolas plásticas e elas não sabem porque fazem isso. outro personagem é enfermeiro-treinador que faz toda a parte móvel para o homem-imóvel, cuida dos animais, da perna dolorida de seu mestre e tudo isso sem motivo aparente. Há uma ave perigosa presa dentro da casa e periquitos-australianos na gaiola do quarto. Neste clima é que a história se desenvolve sempre em tom clinico de análise e com um final abrupto e aberto.

Por que essa maluquice Rafael? Por que David Lynch ou Luís Buñuel fizeram coisa esquisitas? é uma questão de estilo, isso já é perceptível. Essa é segunda obra de Bellatin no Brasil, a primeira Flores era um conjunto de contos que tinham esse mesmo tom escrita, histórias estranhas mas era mais interessante pois as histórias se interrelacionavam de várias maneiras e em vários níveis. Mesmo assim ainda era uma obra fácil de se entender, e esta também, alias eu achei muito mais fácil pois não há muitas dificuldades de alegoria, ou até mesmo diria, muitas interpretações pois Mario dá a chave no subtítulo da novela : “Tratado sobre o futuro da América Latina visto através de um homem imóvel e seus trinta pastores belgas malinois”.

Ou seja, toda essa história é uma reflexão sobre o destino da América Latina. E tudo isso é muito perceptível quando vemos as relações que as personagens desenvolvem no decorrer da história. Todos obedecem ao homem imóvel, tem medo dele e de seu exército pronto para “matar quem quer que seja com uma única mordida na jugular”. As mulheres fazem um trabalho inútil e continuo para sobreviver, e este tirano está pronto para matar tudo o que esteja em casa caso o enfermeiro-treinador o abandone, estranhamente é o ser com mais poder físico dentro da casa que não se rebela por motivo desconhecido. Dizer que este livro é uma alegoria de um sistema ditatorial-fascista não é uma viagem muito grande. No próprio quarto do Homem-imóvel há um mapa da América Latina e os lugares próprios para se ter Pastores Belgas Malinois, lugares próprios talvez para se conquistar.

O título remete a história que desencadeou a sua obsessão por cachorros, que foi o encontro quando ainda era um menino com uma outra criança que fez uma compilação de cães heróicos do nosso tempo. Como profundidade ao personagem podemos dizer que o mundo em que o homem-imóvel é uma tentativa de trazer a vida seus próprios cães heróis, mas a realidade é um lugar de opressão que persiste até o última linha do “romance”. Moral da história: De boas intenções o inferno está cheio.

Agora eu coloquei entre aspas, as palavras “novela” e “romance”, pois o livro é descrito como romance, os que leem o diminuem para uma novela mas o derradeiro fato é que a extensão dessa história indica que ela é somente um conto. Se você olhar os contos de Bellatin eles tem 1 ou 2 páginas em Flores, mas a definição que uso é aquela que tenta ser universal.

Tenta, pois os conceitos mudam de tempos em tempos e a noção de conto/romance é baseada na extensão primeiramente, mas também na unidade semântica das possibilidades da História. Vejam, um conto é uma história com menos de 40 páginas normalmente, a versão original deste tem 60 páginas e é da Alfaguara e a edição da Cosac tem 128. Ou seja se olharmos somente a extensão ele seria uma novela, que é o meio termo, entretanto temos a unidade de sentido e eu sempre lembro do texto do Cortázar analisando as diferenças entre conto e Romance (um dos 10 textos fundadores de minhas opiniões para a arte em geral), e usando as palavras do próprio Cortázar: Contar uma história é uma luta de boxe, um conto é um nocaute em seu leitor, já o romance ganha por pontos.

Eu li em menos de uma hora, o significado desta história não é para ser enrolado em qualquer teia semântica, ele é dado na hora pelo tom e diretamente ao leitor. Isso é um conto tanto em extensão, como na sua construção literária. O problema é que, como disse, ele é descrito por seu autor como um romance, ele foi lançado assim lá fora e  o Mexicano lança uma média de um 1 romance por ano, logo, me parece que esta é uma construção típica dos “romance” de Bellatin. Mas a meu ver, haverá um dia que alguém vai derrubar o conceito por terra, mas não é o escritor mexicano ao que se mostrou até o momento.

Sendo assim, pela primeira vez, eu vou dar minha nota no corpo do texto. Vendo como um conto:

nota4 
Agora se eu for na onda do escritor e tentar ver isso como um romance:
nota2

Bellatin é um escritor controverso, mesmo no México, ou melhor especialmente no México. Alguns o acham um gênio, alguns o acham um show-man. Eu acho que ele é a Lady Gaga da literatura, ou seja, faz bem ao que se propõem mas sua figura pública faz parecer que o bom é muito melhor. Nas entrevistas que vi em Paraty durante sua passagem pela Brasil, suas ideias de composição de literatura são bem complexas e parece que você vai ler algo ao estilo Phynchon, Joyce, Estherházy e só comparar com esses caras já passa mais uma noção de exagero. Ele é um autor bem simples no todo e está procurando levar a literatura a um minimalismo da forma, uma “secura da palavra” segundo suas próprias palavras, histórias que possam ser uma ideia somente… ou seja, o pessoal que curte mesmo arte contemporânea vai adorar (e vou ganhar mais comentário de formalista por essa alfinetada)

Resumo: Não leia este livro como um romance ou você vai se decepcionar, o minimalismo-teórico do Mexicano levou a um lugar super-original: o conto. :)

Vendo por esse ponto você tem uma história intrigante bem escrita.

1 comentários:

  1. Que feio Menny! Mandando recado nas entrelinhas da resenha:

    "Lady Gaga da literatura" (adorei!)

    "o pessoal que curte mesmo arte contemporânea vai adorar (e vou ganhar mais comentário de formalista por essa alfinetada)" não sou fã de arte conceitual, mas você é sim um formalista! Rá!


    Abraço

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