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segunda-feira, 17 de outubro de 2011

A delicadeza - David Foenkinos

 
 







"Nathalie era discreta (uma feminilidade de tipo suíço). Atravessara a adolescência sem grandes choques, respeitando sempre as faixas de pedestres. Aos vinte anos vislumbrava um futuro promissor. Gostava de rir, gostava de ler - duas ocupações raramente simultâneas, no seu caso, pois preferia as histórias tristes. Por considerar a vocação literária algo não concreto o bastante para o seu gosto, decidira prosseguir nos estudos fazendo economia. Sob a aparência de sonhadora, deixava pouco espaço para o mais ou menos. Passava horas a observar gráficos de evolução no PIB da Estônia, com um sorriso estranho nos lábios. No momento em que a vida adulta batia à sua porta, ocorria-lhe, ás vezes, pensar na infância. Instantes de felicidade concentrados em alguns episódios, sempre os mesmos. Corria nas areias de uma praia, embarcava em um avião, adormecia nos braços do pai. Mas nunca sentia nenhuma nostalgia, jamais. O que era uma coisa bastante rara para uma Nathalie*.


*Há muitas vezes certa tendência à nostalgia entre as Nathalies."
Página 7

Existem dois autores franceses, Martin Page e David Foenkinos, que (na falta de uma palavra melhor) me fascinam. Digo isso porque a leitura de cada livro fico mais e mais atraído por esse mundo particular que é construído através da literatura de ambos. É um mundo muito diferente do normal, cheio de detalhes que passam despercebidos a olhares que não prestem atenção. E normalmente são esses detalhes que fazem toda a diferença do mundo. 

Os personagens desses livros, aparentemente são pessoas absolutamente comuns com suas manias, obsessões e loucuras como todas os outros. O bacana é que embaixo dessa aparência comum os personagens, em sua grande maioria, são cativantes, interessantes. Sei que não existe nada de extraordinário no que acabei de citar, mas é que eu não consigo encontrar isso tão facilmente nos livros e eles me fazem muito bem. Por mais que em alguns momentos não seja tão fácil de perceber isso, eles são cheios de vida.

Foi assim com a personagem principal do livro que eu já resenhei aqui no Espanador, de Martin Page em 'A libélula dos seus oito anos' ( há quase um ano, uma feliz coincidência) e agora no livro de hoje de David Foenkinos, a Nathalie, em A delicadeza.

A história de Nathalie é um pouco sobre descobertas, segundas chances e ainda um pouco sobre o medo. Ela cresceu de forma simples e tudo na sua vida correu um caminho mais simples, se bem que, na verdade, nem tudo foi assim: desconsiderando a vocação literária, prosseguiu na carreira com economia.

Nathalie e François se conheceram no meio da rua. Simples assim. Como uma daquelas histórias de amor que já ouvimos falar muitas e muitas vezes. Mas não com David Foenkinos contando essa mesma história. A diferença está em quem conta a história. E pode parecer meio ingênuo ou até mesmo romântico da minha parte, mas a historia de Nathalie e François é linda.

Mas é possível ser feliz e ter medo disso?

O livro seria muito maçante se ficasse só nisso, mas como nem tudo na vida nada é exatamente como o planejado e temos que tentar lidar com isso.

Se disser mais que isso estrago as surpresas do livro.

Por mais que isso seja muito clichê, o livro é cheio de ... delicadezas. Desculpem, mas o titulo realmente representa o livro. Cheio de sutilezas, simplicidades e detalhes que te levam para outro mundo. Cheio de esperança e uma busca pela felicidade.

Há mais ou menos três anos eu li um livro chamado Potencial erótico de minha mulher do próprio  David Foenkinos, pela mesma editora em uma das coleções mais bacanas do mundo, chamada Safra XXI (que hoje está esquecida e com alguns títulos esgotados - um enorme HELLO EDITORAS por esgotar Extremamente Alto & Incrivelmente Perto, que também fazia parte dessa coleção). Fiquei encantado pela irônica e divertidíssima história de Hector e sua compulsão por coleções. Bastou esse livro para me conquistar, ainda hoje é um dos livros mais divertidos que eu já li. Depois desse veio Em caso de felicidade, que eu gostei muito, um retrato muito aguçado sobre uma vida a dois. Tenho mais um na estante: Quem se lembra de David Foenkinos, que me espera.

Esses outros livros já foram lidos há um bom tempo e tinha me esquecido como era bom mergulhar nesse universo cheio de peculiaridades em meio ao cotidiano. 

Me bateu uma vontade de ler novamente O Potencial erótico de minha mulher, que ainda acho que é o seu melhor romance, mas vou deixar isso para depois, pois ainda estou com A Delicadeza na minha cabeça.

Depois de pensar por um tempo, consegui me lembrar o que me faz sentir essa mesma sensação desses livros, os personagens criado por David Foenkinos e Martin Page poderiam facilmente habitar o mundo de Amélie Poulain. E acho isso um belo elogio.

Ps. - Como não amar uma personagem que cita uma das minhas partes favoritas de Rayuela (O Jogo da Amarelinha) ?

Ps. 2 - Fiquei preocupado em não estragar nenhuma surpresa (que é descoberto muito rápido), mas acabei de ler na contra capa do livro que o spoiler já esta lá.  Muito obrigado, Rocco.

A delicadeza 
David Foenkinos 
Tradução de Bernardo Ajzenberg
Editora Rocco 
191 páginas

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