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terça-feira, 22 de março de 2011

Os três Mosqueteiros, Os – Alexandre Dumas

nota4.5






tres mosqueteiros - Escute – disse ela –, rendo-me aos seus protestos e cedo às suas garantias. Mas juro perante Deus que nos ouve; se o senhor me trair, que os meus inimigos me perdoem, eu me matarei acusando-o de minha morte.

- E eu juro perante Deus, senhora – assentiu D’Artangan –, que, se eu for preso cumprindo suas ordens que vier a me dar, morrerei antes de fazer ou dizer algo que possa comprometer alguém.

Então a jovem mulher contou-lhe o terrível segredo do qual o acaso já lhe revelara uma parte, defronte da Samaritan. Foi a mútua declaração de amor trocada pelos dois.

D’Artagnan irradiava alegria e orgulho. O segredo que detinha, a mulher que amava, a confiança e o amor, tudo fazia dele um gigante.

- Parto imediatamente – anunciou d’Artagnan (…)

- O senhor talvez não tenha dinheiro….

-“Talvez é bondade sua – admitiu d’Artagnan, sorrindo.

- Então – disse a sra. Bonacieux, abrindo um armário e tirando de lá a bolsa que, meia hora antes, seu marido acariciava tão amorosamente – tome essa bolsa.

- O dinheiro do Cardeal! – exclamou d’Artagnan, caindo na risada, pois como todos se lembram, graças aos tacos retirados do assoalho ele não perdera uma sílaba da conversa do comerciante com a mulher.

-O dinheiro do cardeal – repetiu a sra. Bonacieux – Vê que ele se apresenta sob um aspecto respeitabilíssimo.

- Essa é boa! – graças d’Artagnan – Será duplamente divertido salvar a rainha com o dinheiro de Sua Eminência.”

pág. 209-211

Na cena acima o herói do romance embarca na aventura que movimenta a trama do clássico de Dumas, após escutar a conversa entre sua amada, sra. Bonacieux, e seu marido, ligeiramente parvo e espião do Cardeal, ele se lança na aventura de recuperar as jóias da Rainha antes que o amante inglês desta seja descoberto. O estilo de Dumas é algo raro de se ver nos dias de hoje, regado da exaltação dos personagens, recheado de falas rápidas e com certo humor da parte de seus personagens principais, inclusive o seu próprio ao admitir no prefácio do livro que adorou a ideia de chamá-lo de os Três Mosqueteiros, pois como eles eram Quatro, tornaria a história ainda mais divertida. Esse foi e é um livro que todo o garoto lê em sua juventude seja o integral, ou o adaptado. Seu estilo folhetinesco, com duelos e intrigas a cada um de seus quase 70 capítulos, os duelos de espada e a coragem que seus personagens exalam a excitação das melhores aventuras. Sem contar a trama movida por fatos históricos revelam um dos episódios mais célebres da história da França: O cerco a La Rochelle.

Esse é Os Três Mosqueteiros mais conhecido e simples, entretanto a popularidade do romance vai além do folhetim, do estilo de romance histórico, além até mesmo das imprecisões históricas de Dumas que ao contrário de Walter Scott, se preocupava muito mais com os personagens do que com a veracidade dos fatos. Os Três Mosqueteiros é uma obra única na literatura que combina o Romantismo de um Mundo antigo, o cenário de Romances Históricos e em certo ponto uma dimensão psicológica que coloca seus personagens à frente de seu tempo, ainda que em parte. A história de do livro é sobre aquele que não é mosqueteiro ainda, o gascão D’Artagnan que chega com a virilidade, coragem e humor da juventude. Acompanhamos ele enquanto aprende a ser um herói, terminamos beirando a tragédia para dar a volta por cima em um ritmo que vai de um simples romance de aventura a um final cru e realista, que nos dias de hoje pode até ser considerado sombrio. Esse é Os Três Mosqueteiros, aqui apresentado.


A CULTURA DA HONRA E O MUNDO ANTIGO

three
Estamos num mundo em que a palavra de um fidalgo vale mais que a vida, e em que a defesa da honra é essencial para seu posto social. Pessoas duelam e se matam na rua. Não é barbárie porém, é uma outra cultura que se torna cada vez mais distante de nossa realidade. D’artagnan é um jovem gascão que se torna amigo de três mosqueteiros fanfarrões mas leais: Athos, o mais velho e misterioso; Porthos, o mais formoso e “inocente” dos mosqueteiros do rei e Aramis, um mosqueteiro que está aguardando para se tornar padre, apesar de apreciar as mulheres e bebidas. D’Artagnan entra na companhia dos guardas de sua majestade enquanto espera uma chance de também se tornar mosqueteiro e lentamente caí numa trama que envolve um homem misterioso que o enfrentou em Meung, uma aia da Rainha e o todo poderoso chefe da ordem na França: o cardeal Richieleu. Com isso arrastando seus amigos.

A rainha tem um caso secreto com o chefe de armas da Inglaterra, o duque de Buckingham e seu segredo pode ser descoberto causando um grande escândalo na França de 1627. A Imagem era tudo no século XVII, se D’Artagnan a princípio entra em todas as possíveis encrencas por não levar desaforo para casa, é para manter sua honra intacta. Sua imagem vale mais que sua vida. Assim como a  Imagem de Ana da Áustria, a rainha, corre perigo no momento em que ela dá uma de suas jóias ao Duque de Buckingham e corre o risco de ser descoberta em uma festa tramada pelo Cardeal Richieleu, o principal inimigo do romance. Quem conhece o segredo da rainha é sua aia, a amada de D’Artagnan que o incube da missão de recuperar as jóias.

Interessante notar como o clássico do Realismo Francês de Madame Bovary seria escrito somente 13 anos após a publicação oficial de os Três Mosqueteiros, com uma visão tão chocante do adultério que mudaria para sempre a visão do amor na sociedade moderna. Podemos notar que D’Artagnan é apaixonado, e correspondido, por uma mulher casada; Que Ana da Áustria ama efetivamente o Duque inglês apesar de casada com o rei, até mesmo Porthos é um amante secreto da mulher do juiz, prestes a morrer. A quantidade de adultérios no livro é impressionante, mas não choca, pois no mundo antigo dos Românticos os sentimentos eram intensos e um homem era medido pelas suas ações (e novamente chegamos a imagem/honra). O herói muda o mundo com suas ações, o mundo da aventura vem de suas ações, isso vem desde a fantástica viagem de Ulisses, que literalmente dobrava o mundo para voltar a casa e tem seu ápice no Romantismo onde os sentimentos intensos, produziam ações intensas tal como o suicídio de Werther, á missão quase suicida de D’Artagnan nessa parte do romance e mais pra frente, o embate entre os dois apaixonados pela rainha da França (duque Buckignhan e o Cardeal Richieleu)  que dão início ao cerco de Rochelle descrito por Dumas desta forma:

“Por tudo isso, o que estava realmente em jogo nesse embate, que os dois reinos mais poderosos disputavam em nome de dois homens apaixonados, era um simples olhar de Ana da Áustria” pág 436

É o reino do sentimento, da força e da honra.

CERCO DE ROCHELE E AS IMPRECISÕES HISTÓRICAS DE DUMAS

Uma das coisas mais notáveis da bela edição da Jorge Zahar são as notas e comentários dos tradutores que apontam diversos erros cronológicos nas beiradas do romance, onde por vezes Dumas adianta eventos que ocorreriam em 40 anos, por outras vezes recupera-os 40 anos no passado. Há incongruências históricas muitos divertidas nas beiradas no romance. Entretanto o evento histórico central que nos permite localizá-lo no tempo é muito bem transcrito em todos o seus desenvolvimento: O cerco a La Rochelle.

expulsão de protestantes

Não sabe o que é? Nem eu sabia bem. Isso é muito mais história francesa do que mundial, entretanto o livro lhe dá uma visão geral muito abrangente da história oficial intercalando brilhantemente com seus personagens. O cerco a La Rochelle foi a última e derradeira ação do  reinado francês contra os calvinistas que instalavam uma Guerra de Religião desde que começaram a ser perseguidos na metade do século XVI. Acabou também expulsando muitos protestantes da região, era um cnflito religioso antigo na França Renascentista.

Toda a ação que transcorre desde a chegada do Duque de Buckighan para defender a cidade em 1827 até sua morte em 1828 é transcrita como um ato de amor, mas na história oficial o interesse político da Inglaterra era bem grande em deixar a França dividida. Logicamente o que para nós atualmente é um registro histórico de Dumas, na época de seu lançamento era uma história também política. Podemos perceber isso pois ele dedica alguns capítulos em explicar quais os interesses por trás da guerra. A habilidade de entrelaçar personagens e eventos históricos, sem perder o ritmo e sem perder a minúcia da informação, era um diferencial em Dumas, e até mesmo uma história tao francesa é aprendida sem dificuldades.

MILADY DE WINTER

milady
Contudo o diferencial mesmo do livro são seus personagens: D’Artagnan é o principal, o herói em formação. Começa como um jovem pronto para briga e para amores, e se torna mais inteligente e astuto com o tempo. Ele é um herói que muda sutilmente. Seus três amigos tem personalidades distintas e conflitantes, se Athos é o mais filosófico e sábio, dá impressão de esconder algo e de ter um conflito interior intenso, que não abandona o leitor até a sua revelação. Portos é o mais corajoso, mas o menos astuto. Aramis flerta com a carreira eclesiástica, mas tem em si a dualidade do querer e do dever, pois em alguns momentos fica claro que ele nunca será um bom padre. O conflito entre as instâncias nestes personagens dá um tom de humor a trama. Temos ainda a constituição elegante do vilão Richieleu, que pode ser mal mas é realmente inteligente, e em contrapartida experiência do protetor dos mosqueteiros o faz o personagem mais virtuoso e sem conflitos. O trunfo da narrativa é a densidade psicológica com a aterrorizante e fascinante personagem de Milady de Winter traz.

Nunca tinha visto em um livro desta época, uma personagem feminina vilã, pois em romances de capa-e-espada elas costumam ser as donzelas indefesas. Muito menos uma personagem tão cruel quanto a Rainha do Inverno. Ela é a personagem mais conflituosa, por vezes descrita como de uma beleza estonteante, em outras como um verdadeiro demônio; sua vingança é terrível, mas seu passado é triste; é sedutora e desprezível. Nunca antes uma vilã roubaria tanto a cena quanto a espiã de Richieleu.

Se a narrativa de Os Três Mosqueteiros, já tinha o foco centrado naquele que não era mosqueteiro, em dado momento ela passa a flertar com Milady, como se o próprio autor quisesse escrever um livro para ela. Como se Dumas também estivesse fascinado com o que criou. Se fosse para escolher um motivo para se ler o livro, seria essa personagem que para mim é a mais emblemática. Ela rouba o foco do livro, o lugar de vilão principal e tem capítulos em que Dumas faz uma coisa não-muito usual para romance históricos: Entra na cabeça dela, quase um monólogo. Pode parecer exagero mas MiIlady é quase um personagem do modernismo e não do Romantismo.

Mas devo fazer um aviso que as feministas não vão gostar do final do livro. Se os mosqueteiros representam um mundo que já não existe mais, cheio de aventura e ação, com a entrada de Milady ele se complica e se na época a constituição dessa personagem estava muito mais ligada a um ideal do que não seria uma mulher, no nosso mundo moderno ela é a mais palpável dos personagens. E a trama evolui para sucessivas mortes e um clima de tragédia, que corroam o amadurecimento de D’Artagnan e punem a maldade representada por Milady, em um final que envelheceu de uma maneira a deixar a história mais sombria, pois os demais vilões não são punidos e toda justiça do mundo recai sob a bela vilã.

TOUR POUR UN, UN POUR TOUS

Se você viu o filme da Sessão da Tarde com Kiefer Sutherland e Tim Curry, você passou longe da história real. Muito menos aquele desenho com o Mickey. As adaptações tiram a intensidade do ritmo de Dumas e tendem a minimizar a força da história. Agora reeditado pela Jorge Zahar em uma belíssima edição capa dura, ilustrada e comentada é um ótimo passeio pela aventura sem deixar de surpreender pelas varias características únicas da obra. A releitura foi agradável, apesar das quase 700 páginas ele é muito rápido pois a ação não para e os capítulos são curtos, e as descobertas são incessantes, que é característica marcante em ler uma obra marcante da literatura mundial.

É muito bom ver os clássico em edições que os valorizam. No momento Dickens e Virginia Woolf carecem disso. Mas Dumas está bem servido, já tínhamos o Conde de Monte Cristo e torço para que saía logo a continuação deste Três Mosqueteiros: Vinte Anos Depois em que o filho de Milady volta para vingá-la.

No mais tire sua espada da bainha e se junte aos Quatro Mosqueteiros deste blog: Um por todos e todos pelos clássicos.

Título: Os Três Mosqueteiros
Autor: Alexandre Dumas
Tradução: André Telles e Rodrigo Lacerda
Editora: Jorge Zahar, 2011, 686 pp.
Mais informações sobre o livro

3 comentários:

  1. TO PASSADA, Menezes.
    Triste saber q nunca serei assim, tão genial

    Parabens, meu orgulhinho de minino!
    :)

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  2. Menezes eu que não sou muito de livros de meninos fiquei morrendo de vontade de ler. E gostaria de ser o Athos!!! Quanto a Milady bacana tem personagens tridimensionais ainda mais nesta época.

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  3. pow e as caracteristicas fisicas e pisicologicas de ATHOS PORTHOS ARAMIS e D'ARTAGAN

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