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domingo, 14 de novembro de 2010

Poema em Quadrinhos, Dino Buzzati

nota5







poema-em-quadrinhos Há muito se discute a condição dos quadrinhos dentro das artes. Alguns consideram puro entretenimento, outros defende com afinco a ideia de história em quadrinhos como uma arte, mais especificamente a Nona Arte (mas não perguntem quais são as outras que só saberei responder o cinema). Creio que toda a arte pode ser entretenimento, pois em nosso mundo atual das massas qualquer coisa pode virar uma simples experiência da abstração, entretanto quando pegamos uma obra de tamanha complexidade e densidade como esta de Dino Buzzati, percebemos todas as possibilidades que esta arte em quadrinhos tem, e que ainda há um longo caminho para se livrar desse preconceito contra as band desinés.

Dino Buzzati fora um dos grandes nomes da literatura italiana do século, seu livro o Deserto dos Tártaros ainda hoje assombra pela poética niilista do tempo e da morte que circunda o quartel em que nosso personagem passa (perde) a vida. Não é de se surpreender que nessa pequena história esse seja novamente o foco de seu trabalho. Dino é um fabulista, assim como Tártaros é uma fábula sobre a solidão, Poemas em Quadrinhos é um fábula sobre a morte, que remete ao mito de Orfeu reinterpretando-o de uma maneira inesperada. Toda a estética de Dino esta nas falas dos personagens, e em sua imaginação com imagens absurdas, por vezes profundamente perturbadoras, surreais e expressionistas. E se as histórias em quadrinhos são normalmente relacionadas à romances, esse exemplar é uma poesia simultaneamente verbal e visual, algo que os irmão Campos provavelmente iriam se interessar em 1969.

A história do “poema” é dividida em quatro partes. A primeira é como uma introdução do cenário, um casarão no meio da cidade imenso e que ninguém nunca viu por dentro, e dos personagens, o cantor Orfi e sua amada. Orfi canta canções melancólicas e é conhecido em toda a Milão, principalmente pelas mulheres que amam sua música. Uma noite ao ter um sonho tenebroso, ele olha pela janela e vê sua amada atravessar- literalmente- a porta do casarão, ele então vai em sua busca.

Na segunda parte ele entra no casarão e vários mortos passam por lá agonizando, até que ele encontra o chefe do local, uma espécie de fantasma representado por uma sobretudo vazio, que faz um tour com Orfi pelo local explicando cada uma das subdivisões e o que era a eternidade para esses espectros. A grande sacada da história não é apresentar essa outra vida como o inferno ou o céu, e sim construir um local de tristeza em que os seres lamentam não existir “a última porta”, todo o drama da existência deles está no fato de nunca mais morrerem. Tendo esse pano de fundo, o chefe dos fantasmas faz um acordo com Orfi: Deixar ele procurar sua mulher no outro-mundo por 24 horas, desde que ele entretenha os espectros com sua música, uma música para rememorar aquilo que eles não tinham: a morte.


Na terceira parte que é basicamente constituída de pequenos poemas que retratam a vida e a morte em imagens surreais, é que toda a força do quadrinho se mostra. Até o momento a história seguia uma sequência linear, ainda que extremamente imaginativa, mas com a entrada dos contos Buzzati leva seu leitor até o limite, expondo contos que desafiam a interpretação, e que se situam no limiar ele entre o belo e o grotesco. Na quarta e última parte, ele encontra sua amada na cidade e tenta desesperadamente tirá-la de lá, enquanto seu tempo para fugir da cidade acaba. O final segue o esperado da fábula de Orfeu, contudo o autor ainda faz uma inversão semiótica da história e o fato de Orfeu olhar ou não para trás é irrelevante, há ainda uma insinuação de que tudo só foi um sonho. Não é necessário dizer  que o final é altamente interpretativo e belo, as imagens de pulso do próprio autor tem cores pastéis e um traço que desfigura tudo, muito mais próximo de figuras cubistas e expressionistas do que seres humanos reais.

Um grande quadrinho, um grande poema, uma bela obra de arte e um autor genial. Detalhe ainda mais instigante é que a obra foi escrita em 1969, antes mesmo de muitas revoluções que os quadrinhos passariam. Mais vanguardista impossível. Buzzati criou um obra única dentro da literatura mundial, mas ainda há tempo de outros autores apostarem, as possibilidades dentro dos quadrinhos começam a ficar cada vez mais claras e creio que ainda não vimos até onde essa arte pode nos levar. As imagens deste livro só instigam nossos sonhos e muitas obras devem ser influenciadas com o lançamento deste livro em português, que já é um clássico dentro dos quadrinhos, só falta agora ser reconhecido como um clássico mundial.

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