- O que você está fazendo? - o rei perguntou ao gato.
- Aquecendo meus pelos ao sol - respondeu o gato, esticando-se na grama.
- Então, para você, o sol hoje é o maioral?
- Hoje, sim - disse o gato - Hoje, o sol é o meu rei.
O rei pensou um pouco. Depois, tirou a camisa, deitou-se na grama ao lado do gato e deixou que o sol brilhasse em sua pele. "
O ato social possui certas regras invisíveis para o bem estar. Viver socialmente exige de você bom senso e, embora os limites não existam abertamente (em alguns casos), para uma convivência harmônica, cada qual tem um espaço que deve ser respeitado. Crianças encontram-se no processo de assimilação do ato social, é o seu período de formação como cidadão, e agir impestuosamente, querendo tudo de todos a qualquer momento é normal. Complicado, cansativo e muitas vezes impossível, mas normal. E O Rei e o Mar é sobre isso.
Este livro me chamou atenção primeiramente porque as ilustrações são do inquestionável Wolf Erlbruch que não apenas ilustra da forma mais genial que a simplicidade poderia exprimir, como escreve bem. Quem não leu ainda A grande questão e A morte, o pato e a tulipa, corram para ontem atrás deles, porque, independente da idade do leitor, o texto é muito bom (alguém já viu uma dona morte mais simpática do que aquela?). E reconhecendo tais desenhos na capa, foi imediato o folhear. Foi quando me deparei com o texto de Heinz Janisch. Ele trabalha justamente essa compreensão do seu lugar no mundo. Um pequeno reizinho que por seu titulo acredita mandar e possuir tudo, e que as vezes se permite a duvida que o leva ao ato reflexivo, e compreender por si só que as coisas funcionam mesmo sem sua vontade ou designação, que cada qual tem sua liberdade de existir. Outra coisa que me chamou atenção foi o estilo de escrita dele. É muito parecido com o de Wolf Erlbruch. Por varias vezes reli a capa para ter certeza que o texto também não era dele. Neste caso, a sintonia entre autor e ilustrador foi perfeita. O texto é solto, encara a literatura infantil não como uma cartilha de como se comportar no mundo, e trata a criança como uma pessoa que não precisa ser subestimada, estimulando o exercício da reflexão. Acho equivocada essa ideia de que livro pra criança precisa ser literal. Onde fica a magia da literatura em descobrir, desbravar, compreender?
A obra é composta de 21 mini histórias, sempre deparando o rei com alguma situação em que sua vontade não poderá ser plenamente satisfeita nos moldes que imaginava inicialmente. Algumas vezes ele compreende que o diferente pode ser bem aceito, outras vezes, como uma criança, dá seus resmunguinhos para não dar o braço a torcer. As colagens são lindas e suaves, certos momentos ela cria novos espaços de compreensão, ora constrói pequenas risadas. Tudo sempre muito sutil, muito bem explorado. Usar cores em tons pasteis distribuídas em poucos elementos e mesmo assim ser ingênuo e infantil. Wolf Erlbruch sabe utilizar-se do espaço vazio. Isso é para muito poucos.
Este livro dialoga muito bem com duas outras obras. Para os interessados:
A princesinha medrosa
Do autor/ilustrador que muito admiro, Odilon Moraes.
A rainha das cores
Juta Bauer.


tive a oportunidade de ler ese livro no último fim de semana
ResponderExcluire puxa vida, fazia tempo, e fazia falta ler um livro desses: infanto-juvenil para crianças de 8 a 88 anos